Li outro dia a notícia de que Angelina Jolie se submeteu à uma mastectomina dupla preventiva, e desde então tenho tido pensamentos flutuantes sobre o assunto.
Primeiro, considerei um ato nobre, já que foi anunciado sob a justificativa de poupar a sua prole do sofrimento que passou quando perdeu a mãe, aos 56 anos, para o câncer de mama. Alegando ter uma falha genética, Jolie tomou a decisão de passar pelo processo cirurgico de nove semanas, e retirar por completo os seios. E, como resultado, reduziu em 82% o risco de desenvolver a doença.
Corajosa. Nem precisa ser mulher para saber o quanto deve ter sido difícil a decisão de remover um dos traços mais marcantes da identidade feminina. E há que se considerar uma dificuldade potencializada para quem ganhou a vida sendo referência de beleza e sensualidade.
Mas aí, parando para pensar com calma, comecei a achar isso uma maluquice sem tamanho. No artigo, publicado no The New York Times, a atriz não se poupa a pormenores: fala com detalhes das três cirurgias que, pela descrição, parecem ser bastante invasivas. E é claro que a terceira, e última, foi de reconstituição das mamas. Afinal, verdadeiras ou não, eu duvido que ela conseguiria viver sem elas para preencher o soutien. Mas, será que vale a intervenção? Será que a medicina tem mesmo como “prever” quem vai ter essa ou aquela doença? E, pior, será que tem tanto poder para curar um mal que ainda nem se instalou?
Me parece um tanto precipitada a decisão de intervir numa realidade que nem se concretizou…. Ainda sou da teoria de que, certas coisas, quando têm que ser, são. E quando não têm que acontecer, não existe estatística que consiga realizar o contrário. É mais ou menos aquela história de que “quando houver 1% de esperança, devemos ter 99% de fé”.
Tá certo, a gente que é mãe tem esse medo monstruoso de algo nos afaste dos descendentes, e eu confesso que também faria qualquer negócio para vencer um inimigo tão assustador quanto o cancêr. Mas não sei se seria assim tão “proativa” a ponto de me submeter a uma maratona cirúrgica – que, diga-se de passagem, também tem seus riscos – para controlar o que ainda era uma possibilidade.
Sei, muita gente vai dizer que é uma prática comum e indicada na medicina preventiva. Mas eu, cá com as minhas maluquices – que, vai ver, são bem mais malucas do que as da Sra. Pitt -, ainda iria preferir controlar semanalmente a saúde, com todos os recursos que a fortuna da atriz permite, do que me adiantar à frente de uma coisa que nem aconteceu, e que pode não acontecer. E, ademais, considero a atitude dela uma faca de dois gumes: encoraja quem realmente têm indicação para esse tipo de procedimento, mas deixa uma multidão de pessoas, cuja única fonte de informação são os tablóides, acreditando que a cura do câncer é retirar os órgãos.
Não discordo da ciência, nem tampouco menosprezo a a prevenção de uma doença tão cruel. Mas cancêr, para mim, assim como a maioria das doenças, está mais na cabeça do que na genética.
A vida está ai para provar que não importa quanto a ciência se esforce, certas coisas fogem ao nosso controle. A gente minimiza um risco aqui, outro acolá, mas, no final, quem resolve mesmo o que vai acontecer com a gente, é o cara lá de cima. Já diziam as nossas avós: o futuro, a Deus pertence. E é melhor deixar nas mãos Dele que, ainda que por linhas tortas, sabe escrever certo.